domingo, abril 12, 2009

Rua De Baixo - Larry Levan & Omar S

Nos últimos tempos, e não sem alguma insistência por parte do Mário João, que sempre achou que eu deveria dedicar-me mais a este tipo de coisas, tenho escrito uns textos para o site Rua De Baixo (do qual o Mário é também um habitual colaborador). Aqui ficam dois que escrevi nos últimos meses (e já com um ou outro "re-edit" do Mário João á mistura...eheh) :

Larry Levan - A importância de um legado :

Não é raro, ao ler ou consultar revistas, fóruns ou blogs dedicados ao fenómeno da dita música de dança, ver com frequência mencionado o nome de Larry Levan. Apesar de falecido há quase 17 anos (em 8 de Novembro de 1992, tendo nascido 38 anos antes, a 21 de Julho de 1954), continua a ser falado; e sendo a cultura de clube um meio por vezes tão efémero, no sentido em que, o que é hoje válido, amanhã pode já não o ser, quais as razões que levam a que Larry Levan continue a ser relembrado, mesmo tendo passado tanto tempo após o seu desaparecimento físico? O que de tão excepcional existia neste homem, que iniciou a carreira de DJ em 1971, para que se continue a falar nele?

Uma das principais razões será por continuar a ser considerado um dos melhores DJs de sempre, tanto por quem na altura frequentava o Paradise Garage (clube Nova-Iorquino, ao qual o nome Larry é indissociável), como pelos DJs que eram seus contemporâneos. É comum lerem-se relatos de como os seus sets eram fantásticos e que conseguia mexer com as emoções do público. Ou seja, ouvi-lo era quase sempre uma experiência inesquecível.

Esforçava-se ao máximo para contar uma história através dos seus sets e era perceptível conseguir perceber o seu estado emocional através da música que escolhia, sendo que, não raro, quem o ouvia, ficava de certa forma refém desses seus estados de espírito. Basicamente, gostava de criar drama e tensão na pista de dança, gostando de mexer com as mentes, provocando-as, por vezes até irritando, mas mesmo assim conseguir com que as pessoas saíssem do Paradise Garage com a sensação que tinham ali vivido alguns dos melhores momentos das suas vidas.

Ainda hoje é notório, através dos vários relatos que se vão lendo acerca dos noites no Paradise Garage, que Larry era adorado, alvo de devoção quase religiosa. Estando à frente de uma cabine de som como a do Paradise Garage (considerado, na altura, o clube com o melhor sistema de som no mundo) e tendo a seu dispor todas as potencialidades que esta lhe apresentava, como um perfeccionista, sempre tratou de tirar o maior proveito disso em favor dos seus sets; conseguindo fazer com que um tema, que muitos consideravam mediano, soasse muito bem naquele sistema de som. Havia até quem produzisse temas feitos de propositadamente de modo a soarem bem no Paradise Garage - tal como admitiu o produtor Arthur Baker acerca da música «Walking On Sunshine» de Rockers Revenge.

Era Levan quem na maioria das vezes ditava o que seria ou não um “hit” nos meses futuros noutras pistas de dança, o que fazia com que vários DJs o fossem ouvir, assim como existiam vários produtores que lhe entregavam em 1ª mão demos de produções suas para que Larry as testasse no Paradise Garage. No fundo, era um DJ residente que se esforçava ao máximo para que nenhuma noite fosse igual à anterior, que adorava mostrar coisas novas a quem o ouvia, que arriscava e não tinha qualquer medo de reacções negativas, tentando estabelecer tendências - precisamente o contrário do que é hoje normalmente associado ao DJ residente de um clube (salvo raras excepções).

Outra das razões da cimentação da sua figura seria a unanimidade acerca do seu bom gosto e grande ecletismo musical. Tentava seleccionar tudo o que achava melhor dentro dos vários estilos, fosse Disco-Sound, Funk, Soul, Hip-Hop, Rock, Electro, Reggae, Dub e, numa fase mais posterior, House. Nos 11 anos em que o Paradise Garage funcionou (entre 1976 e 1987), e mesmo após o fecho deste, muita coisa se ouviu através das mãos de Larry Levan. Não esquecer que essa época, em termos musicais, foi das mais fervilhantes e ele estava sempre em cima do acontecimento.

Para a evolução da sua cultura e abertura de espírito, foi essencial o facto de frequentar, logo no início da década de 70, clubes e festas como o Gallery de Nicky Siano ou o Loft de David Mancuso; locais onde era dada primazia à qualidade da música ouvida, assim como à qualidade com a qual era reproduzida (sobretudo no Loft). Tudo era feito para conseguir pôr as pessoas a dançar e fazê-las regressar a casa com um enorme sorriso nos lábios.

Nesta altura, Levan andava quase sempre acompanhado pelo seu grande amigo Frankie Knuckles, que mais tarde veio a ter um papel muito importante na cena House de Chicago (em parte devido ao próprio Larry, que recusou um convite para ser residente no clube Warehouse em Chicago, recomendando, em contrapartida, o nome de Frankie e o resto como se sabe é história).

Convém realçar que muitos dos temas que são hoje considerados clássicos do Paradise Garage continuam ainda a serem tocados e a soar bastante actuais. O mito associado à sua figura é reforçado por, para além de DJ, ter sido um bom produtor e remisturador. Se as primeiras remisturas que fez ainda durante o final dos anos 70 soavam ao trabalho de outro qualquer remisturador da era, nos anos 80 a história foi outra. Para ele, o principal era que os temas soassem bem no sistema de som do Paradise Garage e explorou intensamente as técnicas do Dub aplicadas ao Disco-Sound e ao Electro (outro que o fez com igual intensidade foi François Kevorkian) criando técnicas de produção inovadoras para a época - que podem ser ouvidas em temas como «Seventh Heaven» de Gwen Guthrie ou «Don’t Make Me Wait» dos NYC Peech Boys - e actualmente utilizadas por nomes como Idjut Boys ou Chicken Lips.

Tendo isto em conta, constata-se que a herança que deixou continua bem viva, seja através de DJs/Produtores que foram seus contemporâneos e que ainda estão no activo, como François K, Danny Krivitt, Joe Claussell, Danny Tennaglia ou DJ Harvey (que chegou até a trazer Larry Levan para passar som no Ministry Of Sound, pouco antes do seu falecimento), seja através de uma nova escola, como Rub N Tug, 2manydjs, The Glimmers, Carl Craig, Tim Sweeney, James Murphy, Morgan Geist, Daniel Wang, Andy Blake, Skull Juice, entre outros. Todos estes, à sua maneira, transmitem-nos o legado que Larry Levan nos deixou, ou seja, o de uma noite (ou dia!) bem passado, a ouvir-se boa música, seja ela de que estilo for e sem medos de, por vezes, arriscar vazar uma pista.

Numa era em que cada vez mais DJs optam por se dedicar quase exclusivamente a um estilo, ora jogando pelo seguro, ora passando o que acham que o público quer ouvir, cada vez mais são necessários outros que se inspirem no legado que Larry Levan nos deixou.


Omar S, o neto de Detroit - Cidade industrial, berço da Motown e do Techno. Omar S e a sua editora FXHE cumprem a tradição :

Detroit. Para quem gosta de música, o nome desta cidade norte-americana pode evocar várias coisas: a editora Motown (aí sediada), os Stooges e os MC 5 (considerados como umas das grandes influências do movimento Punk) ou George Clinton e o seu P-Funk.

Mas, para quem gosta e acompanha o que se vai passando na música electrónica (sobretudo a de cariz mais dançável), evoca primeiro que tudo a palavra Techno, pois foi em Detroit que este estilo, como hoje o conhecemos, nasceu; E a seguir a denominada “Santa Trindade” de bellevue que lhe deu origem: Juan Atkins (Cybotron, Model 500, etc), Derrick May (Rhythm Is Rhythm) e Kevin Saunderson (Reese, Inner City, etc).

Foram estes três os grandes artífices do Techno que criaram as bases pelas quais o estilo musical hoje se move. Com uma maior facilidade de acesso aos primeiros equipamentos electrónicos e fortemente influenciados pelo que ouviam na rádio pelas mãos do eclético radialista Electrifying Mojo (que passava, entre outras coisas, Funk/Disco nas suas mais diversas facetas; Synth Pop, Punk/Post-Punk/New Wave, Rock mais clássico ou o que futuramente veio a ser chamado como “World Music”), criaram música cuja inspiração, na maioria das vezes, parecia vir do espaço.

Nem de propósito, Derrick May afirmava que o Techno soava como se os Kraftwerk e George Clinton (Funkadelic/Parliament) estivessem presos num elevador e quem conhece a obra desses artistas sabe que a música que faziam na altura (anos 70), soava alienígena para ouvidos comuns. Pode-se dizer que os três de Detroit prolongaram essa tradição, com temas que ainda hoje continuam a soar ao mesmo tempo futuristas e actuais, como «No UFOs» de Model 500, «Strings Of Life» de Rhythm Is Rhythm ou «Big Fun» de Inner City.

Pouco tempo depois, ainda fortemente influenciada tanto pelos programas de rádio de Electrifying Mojo, como pelas produções da “Santa Trindade” e pelos já míticos DJ sets de Derrick May no Music Institute (o equivalente de Detroit do Paradise Garage de NYC ou do Warehouse e do Music Box de Chicago), surge a segunda vaga de produtores de Detroit: Carl Craig (o mais eclético), Stacey Pullen, Blake Baxter, Kenny Larkin, Kenny Dixon Jr (aka Moodymann), Theo Parrish (estes dois últimos mais ligados ao House do que propriamente ao Techno), “Mad” Mike Banks (Underground Resistance), James Stinson (Drexcya), Jeff Mills, Robert Hood ou Daniel Bell (estes três últimos os maiores responsáveis pela aplicação dos princípios do Minimalismo ao Techno), entre outros. Tudo nomes que directa ou indirectamente criaram novos paradigmas no que se ouve actualmente nas pistas de dança mais esclarecidas, e cuja importância é mais do que reconhecida.

É no seguimento deste contexto que acabam por surgir indivíduos como Alex Omar Smith, mais conhecido como Omar S, o auto-proclamado “Grandson Of Detroit” (neto de Detroit). Omar S, em conjunto com nomes como Jus Ed, Jason Fine, Luke Hess ou Kyle Hall (que, nem de propósito, editaram todos o primeiro disco através da editora de Omar, a FXHE), fará parte de uma terceira geração de produtores de Detroit, mas assumindo ainda uma personagem algo misteriosa.

Não dá muitas entrevistas, e, quando as dá, transparece um misto de arrogância com uma honestidade desarmante, mas também uma intenção de propositadamente mexer com as mentes com muitos palavrões à mistura. Não se coíbe de dizer o que pensa e não tem problemas em criticar nomes “consagrados” como Masters At Work, Kerri Chandler ou Ricardo Villalobos.

Em relação a este último, Omar S parece querer defender-se de comparações que inevitavelmente vão ser feitas quando sair o Fabric 45, onde apenas irá apresentar e misturar faixas suas, à semelhança do que fez Villalobos no Fabric 36.

Tendo em conta o que Omar S tem editado desde 2001,Villalobos terá um concorrente de valor. As suas produções revelam um espírito eclético, pois tanto produz músicas mais viradas para o House ou para o Techno (como «Psychotic Photosynthesis», seja a versão com ou sem beat ou «The Further You Look, The Less You Will See» ou o mais recente «Blown Valvetrane»), ou mais viradas para o Electro-Disco/Boogie («Thirteen», no seu projecto Oasis ou «Groove On» em que sampla «Baja Imperial» dos Plastic Mode, tema que vem na compilação “Unclassics”, misturada por Morgan Geist) ou até mais viradas para o Hip-Hop (como os 2 EPs “Side-Trakx”).

A produção das faixas tanto pode soar limpa, como suja - à boa maneira de Theo Parrish, e é através da editora deste, a Sound Signature, que sai o último disco de Omar S. Tanto vai buscar influências a sonoridades associadas a Detroit como sonoridades associadas a Chicago. O último disco, “Blown Valvetrane”, faz lembrar coisas como as “Go Wild Rhythm Trax” de Virgo aka Marshall Jefferson. Todos os temas são feitos através de equipamento analógico, pois Omar S afirma que não gosta de trabalhar com computadores e respectivos softwares, preferindo o som algo rude que este tipo de equipamentos produz.

Para ajudar a dar uma maior mística, o site da editora de Omar S é também do mais simples que pode existir, com pouca informação e, aparentemente, um dos poucos sítios onde se consegue arranjar os discos seus e de quem edita pela FXHE. Muitos discos são marcados ou carimbados pelo próprio (através de marcadores que ele traz do emprego que tem na Ford), ou então aparecem com desenhos a preto e branco fortemente influenciados por jogos de vídeo - outra das grandes paixões de Omar S, ao que parece. Um pouco na senda do “so underground it hurts” de Abe Duque, e com uma atitude muito D.I.Y. que vem do espírito punk.

O mesmo espírito eclético que revela nas suas produções parece aplicar-se também aos seus DJ sets, onde passa de tudo um pouco: Disco, Deep-House, Acid-House, Techno e outras coisas que andem por essas redondezas. Corre pela internet fora que os seus sets são muito bons. E não será preciso muito tempo para o confirmar, pois Omar S tem uma data agendada para o Lux, no dia 20 de Março. Será a grande oportunidade de finalmente ouvir este neto de Detroit em acção.

(Quem quiser saber como foi Omar S no Lux, é ler aqui)


p.s. E, para a semana, sábado, dia 18, mais um Manifesto no Clubíssimo :



É o retorno a Setúbal de um DJ que já tinha muitas saudades de ouvir, o Nuno Di Rosso. Lembro-me que, nos tempos do Mecca, era daqueles DJs que fazia questão de não perder, pois tinha uma selecção musical irrepreensível. E, da última vez que o ouvi aqui em Setúbal, foi numa daquelas festas tipo "remember Mecca", que aconteciam no espaço onde era o Mecca e hoje é o Artkafé, algures nos finais de 2003 (seria até numa noite de Halloween, se não estou em erro...), e, mais uma vez, não desiludiu. Da última vez que estive com ele, foi na Flur, e já na altura tinha ido viver para o Norte. Sábado, se tudo correr bem, lá estarei para o ouvir e para lhe dar um abraço. E espero que haja a publicidade merecida.

2 comentários:

Azelpds disse...

Estava a ler o blog da flur e as respostas ao questionário sobre o dia da loja dos discos, quando uma das pessoas e respostas chamou-me particularmente a atenção. Daí até clicar neste endereço foi apenas uns segundos.

O texto sobre o Larry Levan, em particular, é-me familiar e próximo a muitos níveis, apesar de não me comparar a ele, pois nem de longe lá chego ou chegarei. Mas o espírito presente é esse mesmo, e como digo várias vezes, acho que uma das funções do DJ é promover a música, ditar tendencias, seguir aquilo que é o seu cunho pessoal, e se no processo divertir as pessoas, melhor ainda, mas nunca seguir um formato de piloto automático.

Cada noite era diferente e pode-se ouvir coisas que ninguém mais toca devido ao contacto dele com bandas e projectos, ai está algo que sempre me disseram, o que leva a opiniões entre o quem goste ou adore, e quem não atine porque prefira a tal coisa do seguir-se só um estilo. Até actualmente na rádio zero, cada semana e programa lá é diferente, nunca ninguém sabe, eu incluído, o que poderá sair dali, e é engraçado ler agora este texto e sentir tantas coisas familiares de alguém que não conheci em vida.

Existe uma vontade pessoal de tentar transmitir algo especial, que as pessoas presentes sintam que passou-se algo mais ali, e tentar conhecer todos os discos que tenho de trás para a frente só ajuda também, para depois tentar subverter o que é normal ouvir-se em local ou sítio x, não tendo sido poucas as vezes que causava olhares supresos quando me perguntavam o que estava a dar e respondia com um nome que afinal era algo que conheciam bem e gostavam, ou até detestavam, apenas não era aquela música da banda x, a que ouviam sempre.

Ano atrás comentava a uma amiga minha, que digo sempre às pessoas para aparecerem cedo nas minhas noites, porque além de não fazer aquecimentos e poderem assim ouvir mais música também, desde o início o que comece a passar dá sempre sinais do meu estado de espírito e do que pode acontecer nessa noite, já que existe sempre uma espécie de fio condutor e história associada ao momento. E zing, leio este excelente texto sobre o Larry Levan anos depois que foca vários dos tais pormenores que acabam por ser muito familiares.

Paradoxalmente, este percurso e tanta luta por algo onde o foco está no amor à musica e tentar oferecer algo de 'diferente' às pessoas e não em fingir-me de amigo de x ou y, ou seguir os passos tipo cordeirinho de outros, levou a que neste momento não ande a fazer noites e nem sei se voltarei a faze-lo com este andar, já que não parece existir interesse nem se algo é bom ou não, ou gosto pela música, mas sim realmente se conheço x ou y, se marco presença nos locais, ou se sou amigo dos mesmos.

Anyway, já me estiquei bastante, só para dizer mais uma vez que adorei ler estes textos, as respostas no blog da flur, com tudo a fazer-me então comentar aqui da maneira que se vê. :)

Abraço

choco frito anónimo disse...

nuno di rosso e o roger :D yeahh