domingo, junho 07, 2009

Rua De Baixo - DJ Harvey & Filtered Disco

Aqui ficam mais dois textos que escrevi para a Rua De Baixo. A edição nº 45 saiu há poucos dias...dêem uma vista de olhos...eheh.

DJ Harvey - O verdadeiro disco punk. Harvey, DJ ecléctico e boémio refugiado no Havai onde tenta construir um dos melhores sound system do mundo.

Por muito que se insista na dicotomia Disco vs Punk, mais cedo ou mais tarde chega-se à conclusão que, a muita gente, essa suposta “guerra” não faz sentido nenhum, pois consideram que há mais a unir os dois estilos do que a separá-los. Harvey Bassett, mais conhecido como DJ Harvey, é uma dessas pessoas.

Tendo começado, no final dos anos 70, como baterista numa banda Punk (os Ersazt), cedo se começou a interessar pela cena Hip-Hop. Esse interesse surgiu durante uma viagem sua a Nova Iorque, onde ficou fascinado com a habilidade dos DJs de Hip-Hop na mistura dos Breaks (para quem não sabe, os Breaks são partes de bateria, provenientes sobretudo de discos de Funk, Disco e até Rock, que os DJs de Hip-Hop usavam nos seus sets, estendendo-as usando duas cópias do mesmo disco, para prolongar o efeito dançante que tais Breaks causavam a quem os ouvia). Tendo achado que o Djing era um prolongamento da sua actividade como baterista, logo decidiu comprar um par de Technics.

Começou a praticar, e cedo começou a dar nas vistas, tendo um forte impulso da sua crew Tonka Hi-Fi. Desde logo se revelou como um DJ bastante eclético, ficando bastante conhecidas as suas noites onde misturava Disco, Funk, Rock, Hip-Hop, Electro, e, posteriormente, House. Com o passar dos tempos foi conhecendo mais profundamente a história e os protagonistas da cena Disco, pela qual estava cada vez mais apaixonado. No início dos anos 90, foi o responsável por uma das noites mais míticas de Londres, as noites “Moist” no Gardening Club.

Se os seus habitualmente ecléticos e loucos DJ sets seriam suficientes por si só para deixarem essas noites na memória de quem lá esteve, o facto de ter trazido nomes como François Kevorkian, Tony Humphries, Kenny Carpenter e Larry Levan pela primeira vez a Inglaterra ajudaram a mitificá-las ainda mais. No caso de Larry Levan, terá sido das poucas vezes que terá actuado em solo europeu, antes do seu desaparecimento. Foi também Harvey quem inaugurou, em 1996, as já famosas compilações Late Night Sessions da Ministry Of Sound (clube onde foi convidado para ser residente, em meados dos anos 90), e cuja selecção continua hoje a soar bastante actual.

Foi também, mais ou menos por esta altura que nomes como Idjut Boys, Faze Action, Street Corner Symphony, Crispin J. Glover ou Ashley Beedle e editoras como a Nuphonic, a Noid ou a Matrix começaram a destacar-se, sobretudo através da mão de Harvey. Muitos destes nomes partilhavam (e decerto ainda hoje continuam a partilhar) com Harvey muitas das suas influências, sobretudo as mais viradas para o Disco-Sound e a música negra em geral, e o mais normal seria que Harvey apostasse fortemente neles e que se juntasse também a eles, criando assim um novo movimento à volta do ressurgimento do Disco-Sound e do que estava à volta, fosse em termos de produções novas (e Harvey chegou até a fazer parte de um projecto que eram os Persuasion), fosse em termos de re-edits de temas antigos, que até não tinham necessariamente de ser Disco-Sound, algo que se consegue descortinar ouvindo alguns dos re-edits que fez na sua editora, a Black Cock, e que, apesar de até há uns tempos serem difíceis de arranjar, estão a voltar a ser reeditados.

E sabe-se que editou muitas coisas sob pseudónimo para editoras como a Nuphonic ou a Mo` Wax. Aliás, Harvey sempre sentiu uma forte afinidade com o espírito Balearic, e, como tal, não é indiferente a sonoridades mais lentas, com um forte feeling cósmico até (e basta ouvir as mais recentes remisturas dele, como as que fez a «Music In My Mind» de Lindstrom ou a «All My Friends» dos LCD Soundsystem para sentir isso…). E desde que se mudou (parece que definitivamente) para o Sol da Califórnia, essa paixão por tudo o que é Balearic e Cosmic se exarcebou ainda mais.

Reencontrou por lá um dos seus antigos amigos do tempo da Tonka Hi-Fi, Thomas Bullock (uma das metades dos Rub N Tug), na altura ligado à Wicked Crew, uma famosa promotora de festas, e logo começaram a conjurar novos projectos, tal como Map Of Africa, onde veio ao de cima a vertente mais rockeira e psicadélica dos dois (e onde Harvey canta e toca bateria). Foi também na Califórnia que Harvey, juntamente com a marca de roupa Sarcastic (da qual Harvey é grande adepto, sobretudo por estar ligada ao lifestyle do Surf e do Skate) iniciou as noites Sarcastic Disco, onde Harvey continua a explorar o seu forte ecletismo musical.

Pelo que se pode ler no site, percebe-se que a maioria das festas têm uma certa áurea de mistério e secretismo, sendo o local delas revelado praticamente em vésperas das mesmas, embora algumas até sejam no Thirty-nine Hotel, em Honolulu, Havai, do qual Harvey é co-proprietário, e, para além de Hotel, é também um misto de galeria de arte e bar nocturno. Reza a lenda que Harvey não sai dos Estados Unidos da América devido ao medo de poder perder o visto, e a verdade é que na Europa já ninguém ouve um set dele há bastantes anos.

Em Portugal, e após várias visitas durante os anos 90, ainda chegou a vir ao Lux no início da década, para mais um set onde misturou de forma hábil House, Techno, Disco e Rock, mas desde aí… nada. E, numa altura em que voltaram a aparecer nomes que se interessam pelo legado do Disco-Sound (seja na cena mais “tradicional”, seja na cena mais “cósmica”, seja na cena mais Italo, seja na vertente mais Balearic), como Lindstrom, Prins Thomas, Todd Terje, Social Disco Club, Slight Delay, Ilija Rudman, Fabrizio Mamarella, Escort, Mock & Toof, etc, e onde os Re-Edits voltam a estar na ordem do dia, é sempre bom saber que houve alguém que sempre esteve atento a este fenómeno, e que sempre serviu de influência e puxou por quem verdadeiramente acreditava nisto nos seus DJ sets, sem qualquer espécie de receios ou complexos, e que esse alguém é Harvey.

Esperemos que Harvey resolva os supostos problemas com os vistos (e até corre por aí um boato que estão prestes a resolver-se), e que brevemente nos volte a visitar para que possamos usufruir mais uma vez da sua sabedoria e da frescura que sempre transmitiu nos seus DJ sets.


Filtered Disco - O papel de DJ Sneak no pioneirismo do fusão entre o Disco e o House (Filtered Disco) e sua influência na Europa através do French Touch dos Daft Punk, Roulé e Crydamoure.

Apesar de ter sido em Chicago que, literalmente, explodiram centenas de vinis de Disco-Sound (na tristemente célebre “Disco Demolition Night”, no Comiskey Park), ironicamente, é uma daquelas cidades que, em conjunto com Nova Iorque, Miami, São Francisco e Detroit, não deixou o estilo morrer.

Foi em Chicago que o House nasceu e este, como se sabe, descende directamente do Disco. Assim, nunca foi estranho ouvir samples de temas Disco em produções House, desde a génese do estilo. No entanto, durante anos a utilização do sampling seguiu uma norma que foi alterada em meados dos anos noventa.

DJ Sneak (nome de baptismo Carlos Sosa), de origem porto-riquenha, mas desde muito jovem a viver em Chicago, acompanhou apaixonadamente a suave transição do Disco para o House e, obviamente, quando iniciou o seu caminho na produção misturou-os.

Mas, enquanto um vulgar produtor samplava uma secção de um qualquer tema Disco ou Funk, sobrepondo simplesmente uma batida 4/4 de House, Sneak dava o seu toque especial. Pegava num excerto, e usava todas as potencialidades que os meios técnicos tinham na altura, usando diversos efeitos de filtros, para além de usar técnicas de cut-up mais habituais no Hip-Hop. Temas como «You Can`t Hide From Your Bud», «Keep On Groovin», «Quincy`s Groove» ou «Tweakin` At The Club» são exemplos do domínio dessas técnicas de produção.

Criou uma editora, a Defiant, e as suas produções cedo chegaram aos ouvidos de outro grande esteta de Chicago: Cajmere (também conhecido como Green Velvet). Cajmere era dono das editoras Cajual (mais House) e Relief (mais Techno), e eventualmente começou a editar nestas diversos temas de Sneak. Sendo duas editoras de grande referência, e com grande alcance, não tardou muito a que o seu estilo começasse a influenciar outros.

Dentro da própria cidade de Chicago, nomes como Gene Farris, Paul Johnson, Stacey Kidd, Mark Grant ou até o próprio Cajmere começaram a utilizar técnicas de produção semelhantes às de Sneak. Daí, foi um instante até se ver em Nova Iorque nomes como Armand Van Helden, Mateo & Matos, Roger Sanchez ou Junior Sanchez usarem também técnicas similares (Sneak chegou inclusive a produzir em conjunto com Armand Van Helden, colaboração que deu à luz os temas «Psychic Bounty Killaz», parte 1 e 2). Até em Detroit Moodymann experimentou a fórmula em «I Can`t Kick This Feeling When It Hits».

Claro que a Europa não ficou imune e rapidamente chegou a Londres, onde nomes como Dave Lee (Joey Negro), Basement Jaxx ou Rhythm Masters não ficaram indiferentes aos novos sons de Chicago, assim como o germânico Ian Pooley ou os austríacos Last Disco Superstars.

Porém, foi em França que bateu mais forte. O que até não é de estranhar, pois teve, durante os anos 70, uma forte cena Disco-Sound, sendo um dos principais países europeus a produzi-lo durante a época de ouro do mesmo. Dois jovens, de nome Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo eram uns apaixonados por tudo o que vinha de Chicago naquela altura, e também não ficaram alheios aos sons produzidos por Sneak. Tinham gostos bastante ecléticos, pois gostavam de Rock, de Disco, de Hip-Hop, de House e de Techno. E, nem de propósito, o pai de Thomas Bangalter havia sido também produtor de Disco… o resultado foram os Daft Punk (nome que teve origem num projecto de rock, os Darlin’, quando um crítico musical apelidou a sua sonoridade de “daft punk”).

Nos primeiros 12”, como o álbum “Homework”, onde o uso das técnicas de produção típicas de Sneak (embora com um toque próprio da dupla), eram utilizadas de forma bastante eficaz e cedo causaram furor em pistas de dança por todo o mundo. Não tardou até que a imprensa inglesa (para variar) inventasse um nome para este tipo de som: Filtered Disco.

Obviamente, outros produtores franceses adoptaram também esse tipo de som (tanto que chegou a haver uma altura em que Filtered Disco e French House eram praticamente sinónimos). Os que mais sobressaíram dentro dessa vaga foram produtores como Etiénne De Crecy, Alex Gopher, Alan Braxe, Fred Falke, DJ Falcon, Cassius, Bob Sinclar (antes dos assobios, o homem fazia discos de jeito), Superfunk (Fafa Monteco, Stephane B & Mike 303), Demon ou Jess & Crabbe.

Existiram editoras em França que suportaram este tipo de som, como a Roulé (de Thomas Bangalter), a Crydamoure (de Guy-Manuel), a Vulture, a Fiat Lux, a Poumtschack, a Yellow, a Pro-Zak Traxx, a Blackjack ou a Riviera e projectos como os Stardust (Thomas Bangalter, Alan Braxe & Benjamin Diamond) e Modjo que assaltaram tudo o que era Tops, utilizando uma versão mais “leve” das sonoridades inventadas por Sneak, e, inadvertidamente, ajudando a criar algumas das fundações do anódino Funky House.

Começou assim a desenrolar-se uma forte conexão Chicago/França: muitas noites/festas em que participavam DJs dos dois sítios, produtores de Chicago a editar em labels francesas (Sneak e Paul Johnson, por exemplo, editaram pela Crydamoure) e consequentes trocas de remisturas. Já Gene Farris, curiosamente, editava mais pela germânica Force Inc., editora que também não era indiferente ao estilo.

Com o passar do tempo, a euforia em torno deste tipo de sonoridades começou a arrefecer, sobretudo com o advento do Electroclash e a recuperação dos anos 80 (se bem que muito House francês já por lá andasse a repescar algumas coisas). Os Daft Punk também ajudaram com o álbum “Discovery”, que curiosamente tem um tema, o «Digital Love», produzido a meias com DJ Sneak…

Como tudo é cíclico, o Filtered Disco é bem capaz de retornar em força; o Maximal, (também ele muito centrado em França) já efectuou alguma recuperação, embora com um espírito mais “rockeiro” à mistura e nomes como Soundstream/Soundhack ou Tiger & Woods parecem querer recuperar alguma da atitude que estava por detrás das produções de Sneak dos anos 90, para além de aparecerem em 12”s de nomes como Knee Deep, 6th Borough Project ou Dplay também inspirados nessa vaga filtrada.

Nem de propósito, após alguns anos na sombra, DJ Sneak está de certa forma a voltar à ribalta. Primeiro, com um set marcante em conjunto com Ricardo Villalobos num festival na Roménia, numa união latina, e a seguir, através do convite feito pela NRK para fazer um duplo cd misturado para a série “Back In The Box”, onde mistura vários temas da chamada época de ouro do Filtered Disco, que continuam todos a soar bastante actuais.

3 comentários:

Azelpds disse...

parabéns mais uma vez pelos excelentes textos. :)

Gostei de os ler. Bem escritos e bastante informativos, dando umas pistas sobre movimentos e nomes filiados aos mesmos, levando uma pessoa a querer descobrir mais sobre eles, como é o meu caso, já que não estou assim tanto dentro destes estilos.

Anónimo disse...

Muito bom Eduardo,
Como sabes o Harvey é uma das minhas principais referencias... talvez a melhor noite de musica que assisti até hoje foi sem duvida do dj Harvey... e esperemos que volte em breve :-)
May the funk be with you ... harvey!!
Aquele abraço Eduardo
Pedro Viegas

Anónimo disse...

Boas!
bom demais!!!!!Eu pensava que era o unico a têr uma saudade imensa do harvey.Está na altura de nos unir-mos e tentar que ele venha a portugal,pois ainda hoje não vi dj como ele.É UNICO....É A MINHA REFERÊNCIA....